10/05/2012

Fim ou recomeço?

E tudo começou em 2008! Faz quatro temporadas que o Barcelona renovou o espírito do futebol e mostrou que (ainda) é possível vencer sem abrir mão do espetáculo. A alma do Barcelona ressignificou-se no dar prosseguimento ao futebol total que Rinus ensinou a Cruyff e que este passou a Guardiola.

O Barcelona atual encanta. Vence e convence. Usar adjetivos para descrever seus feitos é pedir pra ficar escrevendo até esgotar o léxico. Mas como se trata de futebol, algumas vezes tropeça. E, incrivelmente, por três vezes seguidas contra equipes “mais fracas”, o Barcelona foi superior e não conseguiu vencer.

Caiu de pé nas derrotas para Real Madrid e Chelsea, mostrando que além de exemplar vencedor, é um time que também sabe perder. Ninguém viu Guardiola atribuindo os fracassos na Champions e na Liga Espanhola a fatores externos, mas tratando-os como causalidade futebolística e parabenizando os vencedores. E a torcida não brigou por isso, viu o time perder os títulos que disputou a temporada inteira em pleno Camp Nou e aplaudiu seus jogadores.

Quando tudo parecia caminhar para a mais elevada harmonia, o Barça perdeu os dois títulos mais importantes que disputava e em seguida viu seu treinador dizer adeus. O camisa 10 do time, um baixinho chamado Messi, disse estar triste e falou que aquele técnico que se despediu era mais importante do que ele para o clube.

E agora? O ciclo deste Barça está encerrando-se e o futebol vai retroceder, retomando a velha e arcaica lógica de suprimir o jogo bonito em detrimento do resultado positivo? Sejamos bem menos fatalistas...

O futebol deste Barcelona encantou (e aumentou) sua torcida pelo mundo, fez até os adversários aplaudirem-no, agregou valor aos atletas, aos licenciamentos, aos patrocínios, aos contratos por amistosos e torneios de pré-temporada etc. E tudo isso não só pelos resultados, mas principalmente pelo seu futebol em estado puro. Está, portanto, na hora de pensarmos na logística reversa do futebol: é mais lucrativo aos clubes investirem no espetáculo do que a fixação pelo resultado!

Mesmo perdendo, o Barcelona não deixou de ser o que é e não passou a ter menos respeito. Se isso nos ensinou uma coisa, é a de que melhor do que vencer, é vencer demonstrando superioridade técnica. E que perder jogando na retranca dói muito mais do que perder jogando bem, lutando pelo resultado positivo com outras armas que não sejam o chutão pra frente e o cruzamento no meio da área.

Tito Vilanova, jogador bem menos talentoso que Guardiola e que também passou pelo clube, pode dar uma boa atualizada no trabalho de seu antecessor, como o mesmo já tinha feito em relação ao trabalho de Frank Rijkaard. O Barcelona mudou de técnico em 2008, mas não mudou sua formatação em campo: permaneceu no 4-3-3 dos holandeses, com pontas abertos e futebol veloz.

O que Guardiola veio a agregar foi a importância da posse de bola e a troca de passes. Algo básico, mas que fez grande diferença. O futebol é simples, são onze pessoas tocando a bola em direção ao gol adversário com o objetivo de acertar a bola na meta. Quem complica somos nós. Mas não vamos complicar agora: o espírito do bom futebol ainda vive e é cedo para decretar o seu sepultamento.

Publicado posteriormente no jornal impresso Extra Amapá, ano I, n° 23, de 11 de maio de 2012; e também na coluna Gol de letra do jornal Extra Amapá, em 12 de maio de 2012.

24/04/2012

Quem compra errado paga duas vezes

Oscar, aquele jovem e promissor atleta que comandava o meio-campo do Internacional após se desvencilhar do São Paulo – seu antigo clube – em disputa jurídica, agora se vê obrigado a retornar ao seu antigo empregador. Ele não quer fazer isso, então como fica?

Sejamos claros: contratos trabalhistas são compostos por cláusulas e estas existem para serem cumpridas. Para sair do clube com qual Oscar tinha contrato em 2009 e o rompeu unilateralmente, ele deve fazer uso de uma das cláusulas, a da rescisão com pagamento da multa.

Mas o meia não tem essa quantia em dinheiro e o Internacional não cogita pagar o valor que o São Paulo diz valer esta rescisão (é fato que esse valor ainda será fruto de nova decisão da Justiça, já que se tornou outro objeto de polêmica entre as partes do processo), por isso o clube gaúcho se apega ao argumento de que Oscar tem direito de jogar por lá pelo fato dele querer tal coisa.

Isso basta? Não!

Todo trabalhador brasileiro tem sim o direito de escolher onde irá trabalhar, é algo garantido pela nossa Constituição Federal e não se discute. Mas tinha um contrato assinado no meio do caminho, no meio do caminho havia um contrato! E nem Oscar nem o Internacional podem se passar por desentendidos sobre a existência de tal instrumento.

Instrumento que não impede Oscar de buscar um novo empregador, mas que na esfera desportiva o torna atleta do São Paulo pelo período de cinco anos (restam três anos a serem cumpridos) a menos que uma das cláusulas de rompimento do mesmo seja utilizada da maneira correta. Oscar, em outras palavras, não é um escravo do São Paulo (como parece estar querendo passar), é um atleta que assinou um contrato e a posteriori, sem indenizar seu contratante, quis sair na marra.

Se essa aberração proposta pelo Inter for aceita – coisa que duvido que aconteça – alguém consegue imaginar o que tal precedente vai possibilitar aos contratos vigentes de todos os jogadores do país? O próprio São Paulo, por exemplo, poderia ir até o Internacional e propor um maior salário a Leandro Damião. Possivelmente seduzido, Damião poderia usar como argumento o fato de querer reopção de empregador e cambiar de instituição sem o pagamento da multa aos atuais detentores de seus direitos econômicos. Parece injusto, correto? Mas é isso que o Inter está defendendo...

A solução pacífica é o Internacional pagar o que o São Paulo estipula como multa, caso queira o atleta de imediato, ou esperar a justiça estabelecer qual seria o valor desta multa para depois pagá-la, caso ainda queira o atleta em médio prazo. Mas achar que terá a posse de qualquer percentual dos direitos econômicos do jogador sem pagar nada ao São Paulo, somente pelo fato de Oscar querer continuar trabalhando no Inter, é incoerente e odioso.

O São Paulo está certo em lutar pelos seus direitos. Oscar errou por ter sido mal assessorado por um empresário inescrupuloso, mas tem tempo para aprender com esse equívoco e não voltar a repeti-lo em sua carreira. Já o Internacional parece estar comprando uma briga contra o bom senso e outra contra o politicamente correto, querendo ter a qualquer custo aquilo que não o pertence. Sem eufemismos: faz o papel de um pirata.

Publicado anteriormente no jornal impresso Extra Amapá, ano I, n° 22, de 20 de abril de 2012.

06/04/2012

A queda do Imperador

Já ficou sem graça emitir qualquer opinião sobre Adriano, pois o tipo de notícia sobre este jogador parece nunca mudar: sempre é algo diferente para lamentar.

Adriano na Internazionale? Entrou em parafuso e desistiu da carreira (e depois desistiu de desistir dela para jogar no Flamengo). Adriano no São Paulo? Agrediu um repórter fotográfico. Adriano no Flamengo? Deu uma moto e relevante quantia em dinheiro para um traficante. Adriano no Roma? Reserva, fora de forma, nenhum gol marcado e rescisão contratual. Adriano no Corinthians? Contusão, excesso de peso, faltas em treinos e sessões de tratamento e mais uma rescisão contratual.

Isso tudo só pra resumir os reveses que ele coleciona. Alguém ainda vai criticar Dunga por ter preferido o esforçado Grafite ao midiático Imperador na lista dos convocados para a Copa de 2010? Estou convencido de que, ao menos nesta escolha, Dunga não esteve equivocado.

Antes que justifiquem seu “poder de decisão” colocando-o acima do bem e do mal e imputando o título do Corinthians no Brasileiro como obra dele por conta do gol contra o Atlético-MG, que fique claro: o Corinthians seria campeão mesmo sem aquele gol; e o Corinthians foi campeão muito mais pelos gols de Alex, Liédson, Emerson e William, por exemplo, do que pelo gol solitário marcado por Adriano.

E agora, o que fazer com Adriano, que atrai mídia (como tudo que causa polêmica!), mas não joga futebol? O Flamengo já encaminhou sua contratação, já teve a tal da conversa “olho no olho”, já viu Adriano falar em comprometimento e transferir para o departamento médico do Corinthians a culpa pelo seu fracasso.

Resolvido o problema? Não!

Enquanto Adriano não quiser ser profissional, ou seja, treinar como os outros, cuidar do seu corpo como os outros e seguir a normatização hierárquica do clube como os outros, vai continuar dando errado. Se Adriano não quer se recuperar, então não tem médico e nem psicólogo que dê jeito nele.

Se ele for aceito no Flamengo, que já está uma bagunça, será uma contratação notadamente realizada por pena, por dó de um atleta que se deixou destruir, do que por necessidade do clube, que já conta com os caros Vágner Love e Deivid para o posto de centroavante – e não os paga em dia!

Eu não contrataria Adriano, nem com cláusulas de risco no contrato, por estar mais que óbvio que não vale a pena. Depois do novo naufrágio do projeto Adriano, quem vai prestar contas com a torcida e o financeiro do time? O dirigente que o contratar deveria ser interditado pelo conselho fiscal do clube, pois vai jogar dinheiro fora.

Publicado anteriormente no jornal impresso Extra Amapá, ano I, n° 21, de 4 de abril de 2012.

03/04/2012

A imagem vale mais do que mil palavras 32

01/04/2012

A base da economia de Alagoas faz isso. É justo?

Você sabia que a cada minuto trabalhado um cortador de cana realiza 17 flexões de tronco e aplica 54 golpes de facão? Tudo isso com o joelho semiflexionado e a cervical estendida, o que lhe tira cerca de oito litros de água ao final de cada jornada de trabalho.

São cortadas e carregadas, em média, 12 toneladas de cana e percorrido um percurso de quase nove quilômetros por dia. Assombroso imaginar que, para ganhar a vida, um ser humano faça isso sete dias por semana, não é?

Como é possível que num setor altamente lucrativo, como é o sucroalcooleiro, as condições de trabalho sejam tão ruins e permitam tamanho risco à saúde dos trabalhadores que emprega?

A cana-de-açúcar que faz nosso álcool e o açúcar que adoça nosso café, como escreveu Ferreira Gullar, vem de um trabalho amargo e penoso. Ela é cortada manualmente na maioria das lavouras e o trabalho é repetitivo e exaustivo. Além disso, não há locais com sombra nos canaviais e o cortador não se hidrata adequadamente.

Se é isso que “desenvolve Alagoas”, segundo publicidade institucional da categoria de produtores, olhemos para as condições dos trabalhadores do setor, que tem o tempo de vida útil limitado tal qual acontecia com os escravos de nosso período colonial e imperial. O custo benefício desse “desenvolvimento” vale os sonhos que aniquila e as vidas que destrói?

Agora olhem para nossas mesas, reparem o que comemos: arroz, feijão, batata etc; esses alimentos provém da cadeia de produção deste setor? É certo pensar que Alagoas precisa do setor sucroalcooleiro para se desenvolver como é apregoado por alguns economistas ou defender isso, tomando emprestado as palavras de Golbery Lessa, é usar nossa doença como remédio para nossos males?

Depois deste preâmbulo, é difícil pensar que o deputado federal mais rico do país, João José Pereira de Lyra, seja merecedor do processo ao qual vai responder, sendo acusado de escravizar cerca de 50 trabalhadores?

Conforme os autos de infração da fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, as denúncias são feitas por:

  • sujeitar os trabalhadores, com frequência, a jornada de trabalho superior à 12 horas por dia, inclusive em período noturno, sem respeitar o direito de descanso aos domingos;
  • não oferecer aos trabalhadores equipamentos de proteção individual para o corte de cana-de-açúcar;
  • manter os trabalhadores em condições desumanas, com alojamentos precários, sem a devida ventilação, e ainda com problemas nas condições sanitárias, já que o local de trabalho não possui banheiros;
  • sujeitar os trabalhadores ao consumo de água não filtrada e, no campo, aplacar a sede com gelo, sem qualquer cuidado de higiene.

E diante de tais constatações, a defesa e o acusado parecem não levar as mesmas com a devida seriedade, como ficou claro nas palavras do ministro Luiz Fux: “Causou-me indignação a defesa afirmar que eram apenas 53 os trabalhadores submetidos ao regime degradante. Ainda que fosse apenas um empregado vilipendiado não afastaria a incidência do tipo penal em apreço”.

Agora que as acusações não são mais acusações, mas fatos; e que a denúncia não é mais denúncia, é procedimento jurídico instaurado que o coloca na condição de réu; queremos que a indignação coletiva de todos os que se enojam com esse tipo perverso de exploração do homem pelo homem que é o trabalho escravo não seja somente indignação, mas que seja feita justiça com a devida condenação do deputado, que desde que a notícia tomou a imprensa nacional (no último dia 29) não escreveu mais uma linha sequer em seu perfil do Twitter, até então frequentemente utilizado para fazer o seu proselitismo político.

Vejamos com outros olhos os outdoors do Grupo João Lyra quando o dia primeiro de maio se aproximar...

E como é sempre bom fazer um exercício de memória, lembremos que João Lyra é acusado de ser o autor intelectual do assassinato de Sílvio Viana, tem um viaduto na parte nobre da cidade batizado com o seu nome, e é pré-candidato a prefeito de Maceió nas eleições deste ano. Alguém aí votaria num “senhor de escravos” em pleno século XXI?

Leia mais sobre o tema em outros blogs...

Blog do Josivaldo Ramos: Eleições 2012: Processo contra João Lyra interferirá na eleição em Maceió e União dos Palmares!
Espírito Político: O STF, João Lyra e o Abolicionismo
Mundo em Movimentos: E eram “apenas 53” escravos nas terras do deputado

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